segunda-feira, 11 de julho de 2011

Grande talento

Casa de massagem

Sou atendente de uma casa de massagem no centro de Salvador há seis meses. Meus parentes acreditam que trabalho como doméstica numa casa de família, mas na verdade ofereço serviços sexuais rápidos e baratos. Tudo é muito simples: os clientes tocam a campainha, encontram dez garotas, escolhem a que desejam, depois pagam e vão embora, como se tivessem acabado de sair de uma lanchonete.
Hoje, observando pelo olho mágico, tive a impressão de que havia um homem com um bebê. Quando abri a porta, descobri que ele carregava o irmão de 19 anos, que não possuía nem braços nem pernas. O homem disse que era aniversário do irmão e queriam comemorar. As meninas, assustadas, baixaram a cabeça com receio de serem contempladas; eu não - talvez por isso ele tenha me escolhido.
Dentro do quarto, tentei puxar conversa, descontrair o ambiente, mas ele não dizia nada. Então, tirei sua roupa cuidadosamente, segurei seu torso como se fosse uma boneca (ele era mais pesado do que aparentava) e o coloquei numa posição que eu imaginava ser a mais apropriada para o ato. Foi a primeira vez que gozei no trabalho.

Herculano Neto. Quero ser Paulo César Peréio

Este interessante conto publicado em fevereiro deste ano revela um mundo moderno; sintético, direto e ousado figura como belo exemplo de literatura contemporânea. Apesar do tema ser recorrente, a concepção de caridade e de prazer entrelaçadas na personagem são reveladoras de um sentimento de certa forma escondido por sua narrativa simples, porém revelado por seus feitos fetichista-caridoso. Recomendo a leitura não só desse conto, mas de todo o livro.

Pessoalmente, o sexo incomum escraviza meu gosto, prefiro lê-lo, escrevê-lo, vê-lo e, sempre que puder, praticá-lo...

domingo, 26 de junho de 2011

Bom gosto ou afetação?

Difícil acreditar no que vivemos hoje em nossa sociedade. O que é mais caro é melhor, mais capaz e mais bonito. Não acredito nesta supremacia do poder do dinheiro. Acredito sim em bom gosto e luto diariamente contra os consensos. O que me leva a mais uma encruzilhada: o que os ditos inteligentes dizem que é bom é realmente bom.Não preciso aqui comentar o quanto o senso comum comercial: loiras, fuleragem music, divas latino-americanas, é agressivo e - pelo amor de deus - é vendido ou comprado, as pessoas ouvem e veem tanto que acham que realmente gostam daquilo. No entanto há algo tão decaído quanto é o senso comum do bom gosto judaico-cristão-pequeno-burgês-capitalista-acadêmico-ocidental. É aquilo que leva a todos a dizer, mesmo sem ter lido, que Machado de Assis é o melhor escritor brasileiro. Não questiono aqui a qualidade do artista, mas a obrigação de gostar do que ele ou qualquer outro coroado pela academia faça.Sou professor de Literatura e não gosto de Dom Casmurro. Isto é considerado um crime por isso enfrento narizes torcidos diante de minha sinceridade. Acredito que este bom gosto artificial é muito mais uma afetação que propriamente uma escolha. Deveríamos ser mais livres para escolher o que é bom... Aliás o que é bom deve vir acompanhado com a pergunta "para quê?", porque não dá para ouvir o Carmina Burana (minha ópera favorita) e dançar juntinho com quem estou paquerando. você pode ler Paulo Coelho para passar o tempo, não para refletir. Você não pode ler Clarice Lispector para matar o tempo, lê-la será um exercício de autoconhecimento... O que nos leva a compreender que a expressão "é bom" deva vir acompanhada com o famoso "para quê?"

sábado, 25 de junho de 2011

O ausente...

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta
.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade
Estive fora de mim por algum tempo. Gerenciando... Acreditando que minha liderança faria a diferença no meio deste mundo devastado pelo egoísmo... Descobri que mesmo fazendo o melhor que podia algo invisível e pesado caiu sobre os meus esforços me impedindo de seguir... Não estou falando do "sistema" corrompido de nosso governo ou da incapacidade das pessoas de governar a própria vida, quando elas se entregam a instintos primitivos. Isto poderia derrotar qualquer um, mas não estou falando disso... A força invisível que castiga meu incomum senso moral e esquartejou meu desejo de liderança não vem de fora do grupo mas de dentro de cada componente de seus raciocínios, como se tudo aquilo que aprendemos e para o que fomos forjados não fosse verdade. Ensinar deveria ser a bússola, o bem, o norte. No entanto a maioria deles deseja algo diferente. Junto com eles poderia enfrentar o "sistema", os maus costumes, a ignorância, ... Mas o que é um capitão quando ele descobre que só ele continua acreditando e que o barco navega por conta própria sem fazer questão de estar lá... ou de terminar a travessia...?

Sinto-me vencido e com a fé no ser humano abalada, espero continuar fazendo o melhor sem me contaminar... Gostaria de que mais pessoas acreditassem junto comigo. Por isso estive tão ausente de mim mesmo, por isso pretendo me tornar presente novamente.
E o barco-ensino? Bom só me deixe respirar um pouco...

sábado, 17 de julho de 2010

Clarice

Para quem ama ou odeia... Afinal, ninguém é indiferente a ela.

www.claricianos.blogspot.com

O Vento

Cada vez que o vento me toca
Rogo para que ele corra até você
E leve o desejo de lhe ver
Que está a flor da pele.
Rezo para que o invisível amigo
Beije todo meu corpo como em minha imaginação
Assim, quando essa brisa-telegrama me deixar...
Procurará o destino de meus desejos mais superficiais e profundos
Em você: encontrará a verdadeira vocação:
Mensageiro...
Deixando em seu corpo os caracteres de mim...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Brasil na copa 2010

Pátria Minha

Vinicius de Moraes


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha

Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareir
a
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte c
ara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.


Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto
a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu cora
ção.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


O que nos faz achar que somos realmente brasileiros? Não há resposta... Recorrer ao senso comum que diz que é porque o Brasil é bonito, porque o Brasil tem gente boa, o Brasil é abençoado por Deus, ... Interessante todas essas coisas podemos encontrar em qualquer lugar do mundo. Mas ainda pode ser pior quando alguém se declara brasileiro por conta do futebol.

Difícil respeitar pessoas que só nutrem sentimentos pelas vitórias, é como dizer que gosta da mãe simplesmente porque ela faz sua comida e cuida das suas coisas. Acredito que amar algo deve ter uma motivação mais profunda doque simplesmene vitórias vazias de jogadores milionários que estão visando simplesmente um melhor contrato ao final da copa. De outro lado, sentir-me vencedor através de um jogo que - sabemos todos nós - é governado pelo dinheiro, é um triste engano...

Não sei realmente o que é mais triste, ver o melhor time de uma campeonato perder (ainda não entendi por que) ou um povo sofrito tentar ser vencedor, pelo menos, no campo com os pés de outros. É... O gol foi anulado, o penalti perdido, a jabulane furada, a linha de impedimento não funcionou, tudo isso é muito triste. No entanto ainda pior é: a casa foi levada pela enchente, não tem comida, não tem boa escola, morreu meu parente na fila do hospital (particular ou público), não tenho em quem votar, pois todos são corruptos, ...

As duas situações parecem ser bastante difíceis, mas em qual o povo se concentra? Qual deve ser realmente o centro de nossas atenções? O sonho do gramado parece ser melhor que a realidade cotidiana...

Resta-me acreditar na "mátria" de Vinícius, e não na pátria de chuteiras...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Ainda sobre nascimento... e seu avesso

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severiana

Interessante como Cabral consegue explicar vida e morte tão indissociáveis. Creio que ele esteja com a razão: todo nascimento por mais próximo da morte que esteja, merece ser festejado. Do contrário, não seria nascimento. Sei que otimismo não é uma de minhas qualidades, no entanto tenho mergulhado nesta nova experiência que é, apesar de tudo, acreditar na humanidade. E claro, o título do blog perderia o sentido se eu não trouxesse otimismo para estas linhas virtuais. Interessante é que esta nova fase da minha vida não perdeu o habitual peso herdado das outras. Na verdade, agora, sei o porquê de carregar tantas coisas comigo, o que nunca foi exatamente ruim... me definiu como pessoa, me tornou melhor do que eu esperava. É... nascer é bom, renascer é melhor ainda. O blog agradece a credibilidade do próprio autor.